A partir da história da Mulher Esqueleto

Na história da Mulher Esqueleto, o pescador lança sua rede ao mar. Ele está fazendo aquilo que sabe fazer: buscando alimento, procurando o que possa nutrir sua vida e sua comunidade.

Podemos imaginar esse pescador também dentro de nós. Existe em nós uma parte que lança redes todos os dias. Que busca alimento, afeto, segurança, reconhecimento, conhecimento, encontros, experiências. Uma parte que procura aquilo que acredita precisar para seguir vivendo, crescendo e se nutrindo.

Lançamos nossas redes na vida movidas por desejos e necessidades. Mas nem sempre pescamos aquilo que esperávamos.

Às vezes, junto com aquilo que buscamos, vem algo inesperado. Uma experiência difícil, uma perda, uma mudança, uma pergunta, uma ferida antiga, um encontro que nos transforma, um aspecto de nós mesmas que ainda não conhecíamos.

E aquilo que pescamos pode nos assustar. Assim como o pescador da história, talvez nossa primeira reação seja fugir, soltar a rede, querer devolver ao mar aquilo que apareceu.

Mas algumas coisas que a vida nos oferece precisam ser acolhidas antes de serem compreendidas. A Mulher Esqueleto pode nos lembrar que aquilo que inicialmente parece assustador, estranho ou indesejado também pode carregar uma possibilidade de transformação.

Quando deixamos de fugir, quando nos aproximamos, quando conseguimos olhar e permanecer junto daquilo que apareceu, algo começa a se modificar.

E onde podemos viver essa experiência? No corpo.

O corpo é o nosso primeiro território. É onde a vida acontece. Antes de conseguirmos explicar o que sentimos, muitas vezes o corpo já sabe. Ele aperta, contrai, expande, treme, pesa, aquece, recua, deseja aproximar-se. O corpo guarda histórias, mas também cria muitas outras.

E a dança pode ser um espaço privilegiado para essa experiência. Quando dançamos, podemos expressar e manifestar aquilo que vive dentro de nós. Nem sempre precisamos encontrar palavras. Um gesto, uma respiração, uma mudança de peso, um movimento que se amplia ou se recolhe podem dizer algo que ainda não conseguimos nomear.

A dança nos convida continuamente a experimentar os movimentos da própria vida: expandir e recolher, abrir e fechar, aproximar e afastar, subir e descer, enraizar-se na terra e abrir-se para o céu.

E, quando fazemos isso conscientemente, podemos colocar em movimento as imagens e as conexões com a história. Podemos experimentar no corpo o medo, a aproximação, o afastamento, a curiosidade, a entrega. Podemos sentir o que acontece quando aquilo que parecia assustador deixa de ser apenas algo diante de nós e passa a fazer parte da nossa experiência.

O corpo passa a ser um território de investigação. Não apenas pensamos sobre a nossa história. Nós a colocamos em movimento. E, ao movimentá-la, algo pode se transformar.

Um gesto que antes era pequeno pode encontrar espaço para crescer. Um corpo que estava fechado pode experimentar uma abertura. Algo que parecia pesado pode encontrar outra maneira de se mover. Um movimento de recolhimento pode revelar uma necessidade de proteção; um movimento de expansão pode revelar um desejo de vida.

Assim, vão surgindo novas percepções sobre nossas próprias histórias a partir do movimento consciente e desperto. A dança não precisa nos dar respostas prontas. Ela pode nos oferecer perguntas que germinam nossa consciência, como Clarissa propõe.

Onde estou me fechando?
Onde posso me abrir?
O que precisa de espaço?
O que precisa de recolhimento?
O que quero deixar na terra?
Para onde desejo me expandir?
O que a vida está tentando me mostrar?

Talvez seja esse um dos presentes da Mulher Esqueleto: aquilo que pescamos sem querer pode nos conduzir a um encontro profundo com nós mesmas. Não precisamos imediatamente dar nome, explicar ou resolver.

Podemos simplesmente escutar e mover. Deixar que o corpo se expresse. Deixar que a dança manifeste. Deixar que a respiração encontre seu caminho. Deixar que a terra nos sustente e que o céu nos convide à expansão.

Porque o corpo não é apenas aquilo que carregamos. É também o lugar onde podemos acolher e manifestar a vida, transformando o que carregamos.

A vida nos oferece experiências, algumas desejadas, outras inesperadas. O corpo recebe essas experiências, guarda suas marcas e, quando encontra espaço para se mover conscientemente, pode descobrir novas possibilidades.

A Mulher Esqueleto nos lembra que aquilo que inicialmente queremos rejeitar pode, quando acolhido, participar de um processo de transformação. E talvez dançar seja uma maneira de fazer isso.

Entrar no corpo. Sentir. Mover. Expressar. Recolher. Expandir. Escutar. Acolher. Entregar.

E descobrir que aquilo que pescamos sem querer também pode trazer um aprendizado. Porque a vida não nos oferece apenas aquilo que planejamos. Às vezes, lançamos nossa rede em busca de alimento e encontramos algo que nos convida a uma transformação mais profunda.

E talvez a pergunta não seja “como faço para me livrar disso?”, mas “o que a vida está me oferecendo para aprender, sentir e transformar?”.

A travessia em círculo

Na roda, cada uma percorre um caminho profundamente individual, mas não está sozinha. Cada mulher traz sua própria história, seus medos, suas perguntas, suas descobertas e aquilo que pescou em suas próprias águas. E, ao mesmo tempo, caminha ao lado de outras mulheres que também estão vivendo seus processos.

Não precisamos viver a mesma história para nos reconhecermos umas nas outras. Às vezes, basta perceber uma presença ao lado. Uma mão. Um olhar. Um corpo que também se move, se recolhe, se expande, busca, hesita e continua.

A roda nos oferece companhia para aquilo que é singular. Cada uma faz sua própria travessia, mas há um grupo que sustenta o caminho. Podemos nos inspirar, nos reconhecer, aprender umas com as outras e lembrar que aquilo que vivemos não nos torna estranhas ou sozinhas.

Essa é uma das forças do círculo: fazer um caminho individual em uma jornada compartilhada. Quando dançamos juntas, podemos descobrir que há espaço para nossas diferenças, para nossas histórias e para os diferentes tempos de cada uma.

A roda não retira de nós aquilo que precisamos viver. Ela nos lembra que não precisamos viver tudo sozinhas. E isso pode ser precioso.

Porque, enquanto cada uma escuta o que a vida pescou em suas próprias águas, há outras mulheres ao redor dizendo, com sua presença:

eu também estou aqui. eu também estou caminhando. eu também estou aprendendo. você não está sozinha.
Vamos dançar juntas!

As danças desta história

Para colocar em movimento esta história, realizei algumas danças.

Acalanto

Canção de Teresa Cristina · coreografia autoral

O acalanto traz a qualidade de presença que não tenta apressar nem consertar, mas oferece um lugar seguro para que algo possa repousar e se transformar. Assim como as águas que sobem e descem, podemos aprender a acolher nossas próprias partes feridas, assustadas ou esquecidas, permitindo que o corpo seja um lugar de cuidado e que, por meio da dança, do movimento e da presença, o que estava congelado possa novamente encontrar vida.

Lágrimas

Música de Giovanni Legrenzi · coreografia de Nanni Kloke

Um dos momentos mais delicados e transformadores da história é quando o pescador, depois de toda a sua trajetória de medo e aproximação, adormece e chora, e suas lágrimas se transformam num rio que mata a sede da mulher. Na dança, podemos imaginar nossas próprias lágrimas caindo, uma a uma, até formarem um rio que começa a nos mover e a nos tirar do lugar. Um rio que não apaga o que vivemos, mas cria passagem, levando aquilo que estava represado e abrindo espaço para que algo novo possa acontecer. Ao dançá-las, permitimos que a água encontre seu curso e que o que estava imóvel volte, pouco a pouco, a fluir.

Um novo amor chegou

Canção de Renato Braz · coreografia autoral

Depois de atravessar o medo, a fuga e o encontro com aquilo que parecia assustador, o coração finalmente encontra espaço para acolher o amor que chega. Na história, o vínculo entre ela e o pescador nasce justamente quando ele deixa de fugir, aproxima-se e permanece diante do que encontrou. Aos poucos, o medo dá lugar à confiança, e o que parecia impossível começa a ganhar vida. Na dança, abrimos o coração, expandimos o peito e criamos espaço para receber, não apenas o amor de outra pessoa, mas também o amor pela própria vida, por aquilo que somos e por tudo aquilo que ainda pode nascer em nós.