De onde vem e como chegou até aqui

Estas danças têm suas raízes no encontro entre Bernhard Wosien, bailarino, coreógrafo e pesquisador das danças dos povos, e a Comunidade de Findhorn, no norte da Escócia. Em 1976, a convite de um dos fundadores da comunidade, Wosien compartilhou com os moradores um conjunto de danças tradicionais que havia pesquisado, especialmente danças de roda de diferentes povos europeus.

Esse encontro entre a sabedoria das antigas danças e uma comunidade que buscava novas formas de viver em comunhão com a natureza, de se relacionar e de se conectar com a dimensão espiritual da vida, tornou-se uma semente. Em Findhorn, as danças ganharam um novo contexto e passaram a ser vivenciadas não apenas como expressão cultural, mas também como experiência de presença, conexão e consciência coletiva. A partir dali, esse movimento se espalhou por diferentes países e culturas e chegou ao Brasil.

As DCS fazem parte, assim, de um movimento mundial de valorização e resgate de danças tradicionais e contemporâneas de diferentes povos e culturas. Por meio da dança em círculo, favorecem experiências de conexão com a natureza, centramento, integração, alegria, cooperação, pertencimento e educação da sensibilidade.

No círculo, pensamento, sentimento e ação se encontram e podem ser percebidos no corpo em movimento. Passos, gestos e sequências significativas de movimentos são realizados de mãos dadas, conduzidos pela música e pela guiança e presença do focalizador.

Nas Danças Circulares, chamamos de focalizador a pessoa que coordena e facilita a vivência. Mais do que alguém que simplesmente ensina uma dança, o focalizador sustenta o foco, favorece a presença de cada participante e cria condições para que cada pessoa possa entrar na experiência, perceber-se e relacionar-se com o outro e com o que acontece ao seu redor.

Ao compartilhar uma dança, o focalizador convida o grupo a conhecer passos, ritmos, gestos e movimentos inspirados em diferentes culturas, nas tradições dos povos, na natureza e nos ciclos da vida. A experiência corporal torna-se, assim, uma possibilidade de ampliar a percepção de si, do outro e do ambiente.

Enquanto dançamos, podemos perceber como caminhamos no ritmo proposto, como ampliamos ou contemos nossos movimentos, como respiramos, como nos sentimos e como nos relacionamos com aquelas que estão ao nosso lado. Ao dar as mãos, percebemos que nosso movimento não acontece isoladamente: o movimento de cada pessoa participa do movimento do todo. Interferimos no movimento do outro e, ao mesmo tempo, somos por ele influenciadas.

Pouco a pouco, descobrimos que dançar juntas exige escuta, atenção e disponibilidade. Precisamos perceber a presença da vizinha, ajustar nossos passos, cuidar da maneira como tocamos suas mãos e encontrar uma medida comum para que a roda continue viva e girando. Nesse exercício, empatia, respeito, solidariedade e cooperação deixam de ser apenas conceitos e passam a ser experiências vividas no corpo.

A dança também nos permite perceber nossos automatismos. Muitas vezes repetimos um movimento sem realmente estarmos presentes nele. Quando encontramos um passo novo, um ritmo diferente ou uma sequência desconhecida, somos convidadas a sair do conhecido, experimentar, errar, recomeçar e descobrir outras possibilidades de movimento.

E há algo de precioso nessa repetição: fazemos novamente, mas nunca exatamente da mesma maneira. O corpo muda, a respiração muda, o espaço muda, o estado interno muda. Repetimos o passo, mas a experiência nunca é a mesma. Assim, a dança nos convida a perceber movimento e transformação acontecendo ao mesmo tempo.

Aprendemos também a escutar. Abrimos os ouvidos para a música, para a orientação do focalizador e para os sinais do próprio corpo e do grupo em movimento. Aprendemos a silenciar, esperar, acompanhar e confiar. Descobrimos que estar em um círculo é, de certo modo, aprender a encontrar um ritmo entre o eu e o nós.

E talvez a dança também nos ajude a perceber que fazemos parte do mundo que nos cerca. Os movimentos da dança podem nos aproximar dos ritmos da natureza, dos ciclos de expansão e recolhimento, da terra que nos sustenta, do céu que nos abre espaço, da água que flui, do vento que transforma. A natureza pode estar na música, no gesto, no símbolo, na imagem e também naquilo que se movimenta dentro de nós.

Cada gesto na roda pode tornar-se um ato educativo: aprender com o movimento e com o silêncio; desenvolver presença e atenção; exercitar o respeito e a inclusão; experimentar o convívio e a cooperação; perceber o contrair e o expandir; vivenciar os ciclos; reconhecer limites e possibilidades.

Quando nos concentramos no presente, somos convidadas a experimentar o aqui e o agora. A repetição dos passos, acompanhada pela música e pela atenção ao sentir do corpo, pode favorecer um estado meditativo e ampliar nossa consciência.

Por alguns instantes, podemos nos afastar dos automatismos e das urgências do cotidiano e experimentar a vida a partir de outra perspectiva. Podemos perceber novas conexões entre nós, os outros e o mundo que nos cerca. Podemos escutar aquilo que o corpo revela quando encontra espaço para se mover, sentir e estar presente.

E podemos, talvez, compreender que aquilo que acontece na roda também pode nos ensinar sobre a maneira como caminhamos pela vida.

Porque, no fundo, estamos sempre aprendendo a caminhar juntas.
Aprendendo a escutar sem perder nosso próprio ritmo.
A encontrar o outro sem deixar de ser quem somos.
A sustentar e ser sustentadas.
A avançar, recuar, parar, recomeçar.

E tudo isso pode começar de uma maneira muito simples: passo, passo, balança, balança…

Um pequeno movimento.
Uma mão que encontra outra.
Um corpo que encontra o ritmo.
Um ritmo que encontra outro.
Um círculo que pouco a pouco se forma.

E, quando percebemos, já não estamos apenas aprendendo uma dança. Estamos experimentando uma maneira de estar em relação com a vida.

Fica aqui o convite: vamos entrar no círculo e dançar?