As danças e canções que mais dançamos, com origem, letra e inspirações. Esta página cresce a cada ciclo, no ritmo das rodas.

Abuela Medicina

Coreografia: Estela Gomes, primavera de 2025
Música: Tainá Santos

Conheci o trabalho da artista Tainá Santos por meio da Maria, uma cantora e mulher-medicina que conheci há alguns anos. Durante algum tempo, escutei as canções do primeiro álbum dela e elas foram fazendo parte do meu caminho. Anos depois, no show de Ayla Schaffer, em São Paulo, Tainá abriu as apresentações e tive a oportunidade de escutar novamente e cantar esta bela canção.

Na época do show eu estava me reaproximando do livro Ciranda das Mulheres Sábias, e então a magia aconteceu. A canção encontrou o universo que eu estava vivendo e, de repente, meu corpo foi convidado a dançar. A dança nasceu desse encontro entre a música, a conexão com a memória, a leitura e aquilo que se movia dentro de mim.

Abuela Medicina é uma reverência às minhas avós, Lita (Maria Carmelita) e Nice (Eunice). Duas mulheres diferentes, cada uma com sua história, sua maneira de estar no mundo e seus dons singulares. Lita, amante dos livros e da matemática, contadora, guardiã das histórias familiares. Nice, escritora das inspirações do céu e sensível conexão com a espiritualidade. Ao receber esta dança, fui percebendo que muito daquilo que elas foram e viveram continua presente em mim: nos gestos, nos valores, nos modos de cuidar, nas lembranças e nas forças que atravessaram gerações.

A dança nasceu como uma forma de honrar uma herança que não é apenas recebida, mas transformada e recriada no corpo.

A ciranda das que vieram antes

No livro, as mulheres mais velhas aparecem não como figuras distantes de um passado que terminou, mas como portadoras de experiências, conhecimentos e forças que podem continuar alimentando as gerações que vêm depois. A sabedoria não está somente nas palavras que são ensinadas: ela pode ser transmitida por histórias, cantos, gestos, silêncios, modos de cuidar, maneiras de atravessar as dificuldades e de permanecer ligadas à vida.

Na ciranda, uma mulher nunca dança sozinha. Cada uma traz consigo as mulheres que vieram antes e, ao mesmo tempo, torna-se parte da corrente que seguirá adiante. As mãos que se encontram na roda podem simbolizar essa continuidade: recebemos, transformamos e entregamos.

Por isso, quando dançamos Abuela Medicina, podemos imaginar que a roda se amplia para além das mulheres presentes. Nossas avós, mães, ancestrais e as mulheres que ainda virão também podem habitar simbolicamente esse círculo. Algumas estão na memória; outras estão inscritas em nosso corpo; outras ainda são apenas possibilidade.

A própria ideia de abuela medicina me toca nesse lugar: a mulher mais velha como guardiã de algo que pode curar, orientar, nutrir e lembrar. Não necessariamente uma medicina no sentido literal, mas uma sabedoria encarnada, aquilo que uma mulher aprendeu vivendo e que pode se transformar em presença e cuidado para outras mulheres.

Como o corpo é atravessado

Os movimentos são simples e circulares: caminhamos na roda e balançamos. Depois andamos em direção ao centro, entrando em contato com a flor de lótus das nossas ancestrais e abrindo a nossa própria flor para entregá-la à vida na trama do grapevine, permitindo que o corpo entre em um estado de presença e escuta. Ao repetir os gestos, cada mulher pode encontrar sua própria flor de lótus e florescer. A dança não determina o que deve ser sentido: ela apenas abre um espaço para que algo possa ser lembrado, reconhecido, honrado e transformado.

Isso torna tão especial dançá-la ao final dos encontros da Mulher Selvagem. Depois de atravessarmos histórias, símbolos, medos, perdas, transformações, desejos e descobertas, somos abraçadas pela ciranda das mulheres sábias. E ali podemos simplesmente agradecer. A dança se tornou, assim, uma espécie de ritual de encerramento e de passagem: um momento para recolher aquilo que foi vivido, reconhecer as mulheres que caminham conosco e devolver à roda um pouco daquilo que recebemos. Encerramos num abraço delicioso de estar.

Ao dançar Abuela Medicina, lembro da vó Lita e da vó Nice. Lembro das mulheres que vieram antes de mim. Lembro também das mulheres que encontrei pelo caminho e que, de diferentes maneiras, compartilharam comigo suas medicinas: uma palavra, uma canção, um gesto, uma história. E percebo que a sabedoria das mulheres passa de mão em mão, de corpo em corpo, de geração em geração, e cada uma de nós acrescenta algo àquilo que recebeu.

É assim que a ciranda continua viva.
Uma mulher chega.
Outra lhe oferece a mão.
Uma memória desperta.
Um gesto é transmitido.
Uma história encontra outro corpo.
E a roda segue girando.

Quando dançamos Abuela Medicina para encerrar nossos encontros da Mulher Selvagem, junto à Ciranda das Mulheres Sábias e à Lamparina Escondida, sinto que estamos acendendo e compartilhando uma pequena luz. Uma luz que vem de longe, que atravessou outras mulheres e que agora passa por nós.

Honrar as que vieram antes. Reconhecer o que vive em nós. E manter acesa a lamparina para as que virão. Essa é a medicina da ciranda. Nossa Abuela Medicina.

Letra da canção

Trai nai nai nai nai nai nai nai nai
Trai nai nai nai nai nai nai nai nai

Oh flor, minha linda flor
Flor das matas, flor do meu coração
Flor da floresta, flor das águas do perdão
Flor de Jagube e Rainha
Oh minha flor medicina
Flor da terra, flor do céu
Flor de cura, flor de mel

Oh flor, minha linda flor
Flor das matas, flor do meu coração
Flor da floresta, flor das águas do perdão
Flor de Jagube e Rainha
Flor do velho Juramidã
Vem da terra e vai pro céu
Flor de cura, flor de mel

Reverenciando a presença das avós
Velhas curandeiras com suas ervas benzedeiras
São as mensageiras da rainha da floresta

Abuelita sagrada, teu rezo tem mistério
Voa, voa como um colibri beijando as flores
Espalhando a semente do amor divino
Silenciosamente vai sarando os espinhos

Reverenciando a presença das avós
Reverenciando a toda ancestralidade
Ao fogo sagrado da memória sempre viva
Natureza divina, abuela medicina

Vídeo didático